Em maio de 2025, foi discutido no Senado paraguaio um projeto de lei apresentado por um de seus membros sobre o estabelecimento da jornada de 40 horas semanais de trabalho.
Não foi surpresa que tenha sido rejeitado quase imediatamente, porque a jornada semanal de 48 horas, adotada oficialmente em 1936 durante o governo de Rafael Franco, é até hoje muito pouco observada.
Argumentos bastante triviais deixaram a proposta sem possibilidades, como um que sustentava que os trabalhadores já têm uma hora de descanso para o almoço.
A propósito do último dia 1º de maio de 2026, sinto-me motivado a escrever sobre o assunto, graças à sugestão de um amigo meu.
Faço isso com base em dados históricos e incorporando algumas informações de especialistas, porque, apesar de o senhor Milei ter imposto a jornada de 12 horas na Argentina, a tendência mundial é exatamente a contrária.
A luta pela jornada de 8 horas cobrou muitas vítimas no século XIX. Os mártires de Chicago não foram os únicos presos ou mortos nessa luta que durou décadas.
A resistência dos governos burgueses e dos empresários da época era tenaz, repressora, assassina. Mas a luta continuou.
No Congresso da Internacional Socialista em Paris, em 1889, decidiu-se que cada 1º de maio seria de greve universal, no esforço para alcançar o objetivo das 8 horas.
A primeira vez que essa greve foi implementada no Paraguai foi em 1906.
No entanto, a França aprovou, em 1907, esse número de horas para o setor público, enquanto as mobilizações febris continuavam, especialmente nos países industrializados.
Em 1917, triunfa a revolução russa, semeando o pânico entre os governos burgueses e os capitalistas. Sempre houve revolucionários que queriam derrubar o sistema capitalista, mas nunca, até então, tinham conseguido.
Era necessário fazer algumas concessões urgentes para acalmar os ânimos dos operários do resto do mundo.
Assim, não é casualidade que tenha sido fundada a Organização Internacional do Trabalho, dois anos depois, em 1919, e que sua primeira disposição internacional tenha sido a Convenção nº 1, reconhecendo, para todos os países, a jornada laboral de 8 horas diárias.
As previsões apocalípticas não se cumpriram. As empresas não foram arruinadas, as economias nacionais não quebraram. Mas, por outro lado, também nem todos ratificaram imediatamente essa Convenção.
Ainda assim, em maio de 1926, um dos capitalistas mais conhecidos da época, Henry Ford, estabeleceu em sua empresa a jornada de 8 horas, 5 dias por semana (40 horas semanais de trabalho), concedendo dois dias de folga aos seus trabalhadores, porque acreditava que esse fim de semana mais longo faria com que comprassem mais carros e porque considerava que seus trabalhadores estariam mais descansados e que, portanto, produziriam mais e melhor.
Pelo visto, isso produziu resultados positivos para sua empresa, porque em 1930 o também famoso economista John Maynard Keynes apresentou sua célebre palestra intitulada “As Possibilidades Econômicas dos Nossos Netos”, afirmando que, 100 anos depois, por volta de 2030, as pessoas iriam trabalhar apenas 3 horas diárias, 15 horas semanais, para suprir suas necessidades.
Passaram-se 16 anos e a OIT (Organização Internacional do Trabalho) aprovou a Convenção nº 47, aceitando o estabelecimento da semana laboral de 40 horas.
Essa instituição aprova, invariavelmente, todas as disposições por acordo tripartite (governos, empresários e trabalhadores).
Isso significa que havia certeza de que a nova Convenção seria benéfica para todas as partes. A prova é que, em 1938, isso já se tornou lei nos Estados Unidos (Fair Labour Standards Act).
Pedro Gomes, especialista português na matéria, que há muito tempo leciona na Universidade de Birkbeck, Inglaterra, sustenta que essa prática teve as seguintes consequências:
1. Aumento da produtividade por horas trabalhadas.
2. Trabalhadores mais descansados e redução do absenteísmo.
3. Redução da rotatividade laboral.
4. Mudanças na organização do trabalho (tecnologia e boas práticas).
O mesmo catedrático também participou de um experimento em Portugal, com 41 empresas, para reduzir a semana laboral para 4 dias. De todas elas, apenas 4 não concordaram em implementá-la.
Outros países europeus já reduziram a semana laboral para menos de quarenta horas. Na Alemanha, o Sindicato IG Metall conseguiu acordos para certos setores com menos de 30 horas por semana. Na França, a semana de trabalho é de 35 horas.
Na América do Sul, Venezuela e Equador já adotaram as 40 horas, enquanto o Chile começou a trabalhar 42 horas semanais, no mês de abril deste ano, e a Colômbia fará o mesmo a partir de julho de 2026. A redução gradual pretende chegar às 40 horas.
Muitas patronais e, sobretudo, muitos governantes continuam olhando para a árvore e não para a floresta. Consideram que, quando o trabalhador para de trabalhar, a economia também para. Mas não é assim. A economia continua funcionando porque aquele trabalhador que está livre nesse dia pode passear, estudar ou se divertir, consumindo serviços.
Esse fenômeno pode criar novas empresas dedicadas a esses setores e produzir novos empregos, fortalecendo as economias locais e nacionais.
Segundo Pedro Gomes, a China adotou as 40 horas semanais em 1995 e hoje se tornou o país com o turismo interno mais forte do mundo.
Há mais a dizer, mas terminemos aqui, em virtude da extensão deste artigo, esclarecendo que a intenção é iniciar um debate sério sobre um tema que está sendo abordado de maneira responsável em vários países da América do Sul, enquanto, no Paraguai, a mediocridade política quer soterrá-lo com argumentos pueris.
O autor, é paraguaio de nascimento, foi dirigente sindical em seu país, foi Secretário-Geral da Confederação Sindical das Américas e Secretário-Geral Adjunto da Confederação Sindical Internacional. Em setembro de 2023 publicou o livro “Sul Global: custa caro ser pobre”.