Em 24 de março de 2026, a Assembleia Legislativa da Costa Rica, por meio do Expediente nº 25.197, declarou Doña Filomena Navas Salazar — mulher indígena do povo Bröran, nascida em Térraba em 1926 — como Benemérita da Pátria.
O povo indígena Bröran está localizado em Térraba, uma comunidade no cantão de Buenos Aires, província de Puntarenas, a cerca de 200 km ao sudeste de San José. Essa população é descendente direta dos teribe ou naso, que atualmente vivem na província de Bocas del Toro, Panamá.
O reconhecimento constitui um ato de justiça histórica, ao destacar seu papel na defesa dos direitos humanos, na proteção do território indígena e na preservação do conhecimento ancestral.
Sua filha, Elides Rivera Navas, afirma: “Este reconhecimento não apenas honra sua memória, mas também constitui um ato de justiça histórica para o povo Bröran.”
Liderança e defesa do território
Filomena foi uma mulher indígena pioneira na participação política e comunitária na Costa Rica do século passado. Seu exemplo de vida e sua ampla participação cidadã anteciparam muitas normas jurídicas que hoje protegem os direitos das mulheres e dos povos indígenas.
Em 1953, Filomena tornou-se a primeira mulher indígena em Térraba a exercer o direito ao voto, tornando-se parte dos primórdios da Segunda República e abrindo caminho para a participação política das mulheres indígenas na Costa Rica.
Segundo Elides, sua ação política não esteve isenta de críticas. Para votar, Filomena obteve sua cédula de identidade, e alguns diziam que “ela queria ser como um homem, tomar decisões e não se deixar mandar pelo marido”. Entre risos, Elides recorda sua mãe dizendo: “Com ou sem cédula, eu não me deixava calar.”
O reconhecimento atual evidencia uma Costa Rica que não é apenas branca, mas construída sobre pilares enraizados nos povos indígenas, incluindo os Bröran. Hoje, em 2026, Doña Filomena continua a mudar a história dos povos indígenas com o marco de ser nomeada Benemérita da Pátria, explica Elides.
Nos anos 1970, Filomena enfrentou diretamente as empresas madeireiras que tentavam explorar as terras indígenas.
Os madeireiros assumiam que essas áreas eram territórios baldios, ignorando que ali viviam comunidades indígenas há gerações.
Na época, um madeireiro destruiu suas plantações e tentou abrir um caminho com máquinas através de sua propriedade em Veragua. Filomena recusou-se a abandonar sua casa e seus cultivos, mesmo sob ameaças de violência. De mãos dadas com seus filhos e filhas, permaneceu firme diante do rancho e defendeu sua terra.
A denúncia foi feita, mas não houve resposta. Elides lembra que sua mãe “defendeu a terra como um direito fundamental para a vida e afirmava que a terra não era mercadoria, mas sustento e herança para as futuras gerações.”
Esse ato de resistência tornou-se um símbolo da luta indígena contra o despojo territorial e a exploração ambiental, inspirando novas gerações de líderes comunitários.
Situação atual do território Bröran
Segundo Elides, os Bröran continuam enfrentando exclusão e violência estrutural. Embora tenham ocorrido processos de recuperação de terras, como a fazenda Crun Shurín em 2018, e o Estado tenha comprado algumas propriedades para devolvê-las aos Bröran, muitos desses processos foram judicializados.
Nesse contexto, ocorreram os assassinatos dos líderes indígenas Sergio Rojas e Yerhy Rivera em 2020, que permanecem impunes. Elides destaca: “Os povos indígenas foram historicamente excluídos do sistema de justiça costarriquenho. A violência contra líderes indígenas persiste e reflete uma estrutura estatal que favorece os não indígenas dentro dos territórios.”
Ela acrescenta que, quando os direitos territoriais dos povos indígenas são negados, sua identidade é anulada.
O Conselho de Anciãos
Formalizado por volta de 2010, o Conselho de Anciãos reúne pessoas com mais de 60 anos para tomar decisões comunitárias. Antes, existia a Assembleia de Adultos, mecanismo ancestral de deliberação.
Embora inicialmente composto apenas por homens, as mulheres conquistaram espaços de participação em condições de paridade. Elides sublinha: “As mulheres conseguimos abrir espaços de participação ativa. Pela incidência da Organização Mano de Tigre, alcançamos paridade na representação dentro do Conselho de Anciãos.”

A organização Mano de Tigre
Elides integra a organização de mulheres Mano de Tigre, formalizada em 2004, mas com raízes nos anos 1990 como espaço de articulação feminina.
A organização tem sido fundamental na defesa do território e na promoção da participação política e econômica das mulheres Bröran, por meio de “palavras, ação e tomada de decisões”. Seus eixos de atuação incluem: Defesa e direito ao território; Direito à educação e participação política; Direito à economia Bröran.
Elides reconhece a influência de sua mãe: “A liderança de minha mãe foi uma semente direta na criação da Mano de Tigre. Embora tenha falecido em 2006, acompanhou os primeiros anos da organização, transmitindo ensinamentos sobre como materializar a defesa do território e os direitos das mulheres, dos filhos e das filhas, o direito de não ser violentada.”
Atualmente, a organização atua em cinco comunidades, oferecendo ferramentas para produção sustentável, cuidado ambiental e fortalecimento dos direitos das mulheres. O processo é amplamente inclusivo, envolvendo meninas a partir de 12 anos, jovens, adultas e idosas, garantindo sua participação em espaços de decisão.
Um legado de resistência e justiça
O reconhecimento de Filomena Navas Salazar como Benemérita da Pátria não apenas honra sua memória, mas também evidencia a força e o protagonismo das mulheres indígenas Bröran, que continuam defendendo seus direitos, suas terras e sua cultura diante dos desafios atuais.



